domingo, 12 de agosto de 2012

FRATERNIDADE DAS RELIGIÕES: UMA DOUTRINA PAGÃ

"No poderoso Império da Roma Antiga todos os credos eram bem-vindos, todas as religiões eram respeitadas, e mesmo honradas. No Panteão - o templo de todos os Deuses - de Roma eram encontradas as imagens que simbolizavam os Deuses de todas as nações súditas, e os cidadãos romanos demonstravam reverência a todos. E se uma nova nação entrava na órbita do Império, e se esta nação adorava uma forma de Deus diversa daquelas já cultuadas, as imagens ou símbolos dos Deuses da nova nação-filha eram trazidos para o Panteão da Pátria-Mãe com toda a honra, onde eram entronizados com reverência. Assim, todo o mundo antigo era todo permeado pela idéia liberal de que a religião era um assunto de caráter privado ou étnico, onde ninguém tinha o direito de interferir. Deus estava em toda parte, em todas as coisas; que importava a forma sob a qual era adorado? Ele era um só Ser invisível e eterno, com muitos nomes; que importava o título pelo qual era invocado? A palavra de ordem da liberdade religiosa do mundo antigo ressoa na esplêndida declaração de Shri Krishna: "Por quaisquer caminhos que os homens tomem para se aproximar de Mim, ali mesmo Lhes dou as boas-vindas, pois de todos os lados todos os caminhos são Meus"."

A primeira vez em que a perseguição religiosa manchou os anais da Roma Imperial foi quando o jovem Cristianismo entrou em conflito com o Estado, e derramou-se o sangue de Cristãos, não como sectários religiosos, mas como traidores políticos, e como perturbadores da paz pública. Eles reivindicaram supremacia sobre as antigas religiões, e assim provocaram ódios e tumultos; eles atacaram as religiões que até então haviam vivido em paz lado a lado, declarando que só eles estavam certos, e os outros todos, errados; eles suscitaram o ressentimento por causa de sua atitude agressiva e intolerante, causando distúrbios aonde quer que fossem. E pior ainda, deram origem a suspeitas mais sérias a respeito de sua lealdade ao Estado, ao se recusarem a tomar parte na cerimônia usual de espargir incenso no fogo que ardia diante da estátua do Imperador reinante, e denunciaram a prática como idólatra; Roma viu sua soberania ameaçada pela nova religião, e o mesmo tempo que era largamente tolerante para com todas as religiões, era duramente intolerante contra qualquer insubordinação política. Foi como rebeldes, e não como heréticos, que ela lançou Cristãos aos leões, e os expulsou de suas cidades para que vivessem em cavernas e nos desertos.

Foi essa reivindicação do Cristianismo, a de ser a única religião verdadeira, que deu origem às perseguições religiosas, primeiro do Cristianismo, e depois por ele. Pois enquanto a sua religião é sua e a minha é minha, e ninguém pretende impor a sua religião sobre o outro, não pode surgir nenhum motivo de perseguição. Mas seu eu digo: "Sua concepção de Deus está errada e a minha está certa, só eu tenho a verdade, e só eu posso apontar o caminho da salvação; se você não aceitar minha idéia encontrará a danação"; então, logicamente, se eu pertenço à maioria, devo virar um perseguidor, pois é mais interessante assar heréticos aqui do que permitir que espalhem suas heresias, danando a si mesmo e a outros para sempre. Se, porém, sou da minoria, provavelmente serei perseguido por homens que não tolerarão tão prontamente a arrogância de irmãos que não lhes permitem olhar para os céus senão através de seu próprio telescópio especial."
 

A FRATERNIDADE DAS RELIGIÕES
Annie Besant
Theosophical Publishing House Adyar, Madras, India.
Primeira Edição em fevereiro de 1913 Reimpresso em outubro de 1919.

 A INTOLERÂNCIA CRISTÃ


"...Falam da tolerância dos primeiros séculos, da tolerância dos Apóstolos. Mas isso não é assim, meus irmãos. Ao contrário, o estabelecimento da religião cristã foi, por excelência, uma obra de intolerância religiosa. No momento da pregação dos apóstolos, quase todo o universo praticava essa tolerância dogmática tão louvada. Como todas as religiões eram igualmente falsas e igualmente desarrazoadas, elas não se guerreavam; como todos os deuses valiam a mesma coisa uns para os outros, eram todos demônios, não eram exclusivos, eles se toleravam uns aos outros: Satã não está dividido contra si mesmo. O Império Romano, multiplicando suas conquistas, multiplicava seus deuses e o estudo de sua mitologia se complica na mesma proporção que o da sua geografia. O triunfador que subia ao capitólio, fazia marchar diante dele os deuses conquistados com mais orgulho ainda do que arrastava atrás de si os reis vencidos. A mais das vezes, em virtude de um Senatus-Consulto, os ídolos dos bárbaros se confundiam desde então com o domínio da pátria e o olímpio nacional crescia como o Império.
Quando aparece o cristianismo (prestem atenção a isso, meus irmãos, são dados históricos de algum valor com relação ao assunto presente), o cristianismo quando apareceu pela primeira vez, não foi logo repelido subitamente. O paganismo perguntou-se se, ao invés de combater a nova religião, não devia dar-lhe acesso ao seu solo. A Judéia tinha se tornado uma província romana. Roma, acostumada a receber e conciliar todas as religiões, recebeu a princípio, sem maiores dificuldades, o culto saído da Judéia. Um imperador colocou Jesus Cristo assim como Abraão entre as divindades de seu oratório, como viu-se mais tarde um outro César propor prestar-lhe homenagens solenes. Mas a palavra do profeta não tardou a se verificar: as multidões de ídolos que viam, de ordinário sem ciúmes, deuses novos e estrangeiros serem colocados ao lado deles, com a chegada do deus dos cristãos, lançam um grito de terror, e, sacudindo sua tranqüila poeira, abalam-se sobre seus altares ameaçados: ecce Dominus ascendit, et commovebuntur simulacra a facie ejus. Roma estava atenta a esse espetáculo. E logo, quando se percebeu que esse Deus novo era irreconciliável inimigo dos outros deuses; quando viu-se que os cristãos, dos quais se havia admitido o culto, não queriam admitir o culto da nação; em uma palavra, quando constatou-se o espírito intolerante da fé cristã, é aí então que começou a perseguição.
Ouvi como os historiadores do tempo justificam as torturas dos cristãos. Eles não falam mal de sua religião, de seu Deus, de seu Cristo, de suas práticas; só mais tarde é que inventaram calúnias. Eles os censuram somente por não poderem suportar outra religião que não seja a deles. "Eu não tinha dúvidas, diz Plínio o jovem, apesar de seu dogma, que não era preciso punir sua teimosia e sua obstinação inflexível": pervicaciam et inflexibilem obstinationem. "Não são criminosos, diz Tácito, mas são intolerantes, misantropos, inimigos do gênero humano. Há neles uma fé teimosa em seus princípios, e uma fé exclusiva que condena as crenças de todos os povos": apud ipsos fides obstinata, sed adversus omnes alios hostile odium. Os pagãos diziam geralmente dos cristãos o que Celso disse dos judeus, com os quais foram muito tempo confundidos, porque a doutrina cristã tinha nascido na Judéia. "Que esses homens adiram inviolavelmente às suas leis, dizia este sofista, nisto não os censuro; eu só censuro aqueles que abandonam a religião de seus pais para abraçar uma diferente! Mas se os judeus ou os cristãos querem só dar ares de uma sabedoria mais sublime que aquela do resto do mundo, eu diria que não se deve crer que eles sejam mais agradáveis a Deus que os outros".
Assim, meus irmãos, o principal agravo contra os cristãos era a rigidez absoluta do seu símbolo, e, como se dizia, o humor insociável de sua teologia. Se só se tratasse de um Deus a mais, não teria havido reclamações; mas era um Deus incompatível, que expulsava todos os outros: eis porque a perseguição. Assim, o estabelecimento da Igreja foi uma obra de intolerância dogmática. Toda a história da Igreja não é outra que a história dessa intolerância. O que são os mártires? Intolerantes em matéria de fé, que preferem os suplícios a professarem o erro. O que são os símbolos? São fórmulas de intolerância, que determinam o que é preciso crer e que impõem à razão os mistérios necessários. O que é o Papado? Uma instituição de intolerância doutrinal, que pela unidade hierárquica mantém a unidade de fé. Porque os concílios? Para freiar os desvios de pensamentos, condenar as falsas interpretações do dogma; anatematizar as proposições contrárias à fé.
Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina; nós disto fazemos profissão; nós nos orgulhamos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e conseqüentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo sobre a terra, apresentou os títulos de sua origem; ela ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade. Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: Eu sou a verdade: Ego sum veritas, é necessário por uma conseqüência inevitável, que a Igreja Cristã conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do céu; é necessário que ela repila, que ela exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar à Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina é dirigir-lhe uma recriminação muito honrável. É recriminar à sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar à esposa ser muito delicada e exclusiva.
Nós ficamos muitas vezes confusos do que ouvimos dizer sobre todas estas questões até por pessoas de senso. A lógica lhes falta, desde que se trate de religião. É a paixão, é o preconceito que os cega? É um e outro. No fundo, as paixões sabem bem o que elas querem quando procuram abalar os fundamentos da fé, pondo a religião entre as coisas sem consistência. Elas não ignoram que, demolindo o dogma, elas preparam para si uma moral fácil. Diz-se com uma justeza perfeita: é antes o decálogo que o símbolo que as faz incrédulas. Se todas as religiões podem ser postas num mesmo nível, é que elas se equivalem todas; se todas são verdadeiras é porque todas são falsas; se todos os deuses se toleram, é porque não há Deus. E se se pode aí chegar, não sobra mais nenhuma moral incômoda. Quantas consciências estariam tranqüilas, no dia em que a Igreja Católica desse o beijo fraternal a todas as seitas suas rivais!"
 
A intolerância católica* (sermão pregado na Catedral de Chartres em 1841)
Cardeal Pie


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